sexta-feira, março 30, 2007

Carlinhos Gonçalves

"Quais os 10 melhores filmes deste ano?" Essa era a pergunta que ele sempre nos fazia. E antes que respondêssemos ele já começava a enumerar os que ele tinha elegido. Sabia tudo sobre cinema, lia tudo sobre filmes, via tudo que passava, às vezes assistindo uma sessão depois da outra.

Morava em São Paulo. O conheci morando, com meu irmão, em um minúsculo apartamento cujas janelas abriam direto para o "Minhocão" da Amaral Gurgel. Nesse apartamento - uma saleta, um quarto e uma cozinha - vivam meu irmão, ele e uma menina chamada Lucia, que depois da anistia passou a se chamar Lívia, mas essa já é outra história.

Carlinhos era a agitação em pessoa. Quando conversava, falava por todos os poros. Ria, gesticulava, se levantava, andava pela sala imitando gestos. Era todo movimento. Às vezes ia passar um final de semana conosco no Rio e ai se agitava mais ainda, porque a-do-ra-va o Rio, o sol, a praia, o povo tão alegre. Amava conversar com Paulo e achava o máximo lerem o "Cahiers du Cinema", que Paulo comprava regularmente, numa época em que também se dedicou a saber sobre cinema.

Generoso, sabia ouvir nossas angústias de nordestino vivendo em uma cidade grande, com saudade da carne de sol e do feijão verde. Ouvia e nos consolava contando do seu sofrimento também, alguns anos antes, quando chegou em São Paulo, fugindo do preconceito e da marginalização homófoba de nossa cidade natal.

Muito vivo na minha memória o dia em que assistimos, em Natal, o show de Caetano Veloso. Era em um estádio ao ar livre, todos nós de pé no meio do gramado, ouvindo Caetano cantar "Velho Chico", ele quase em lágrimas, enternecido com a beleza da música.

Da última vez em que o vi ele estava sentado no sofá da sala da minha casa. Me contava do terrível diagnóstico que tinha recebido recentemente, numa época em que isso era um atestado de morte iminente. Com toda a sua agitação e força me disse: "eu vou vencer essa, pode esperar".

Venceu mesmo, Carlinhos, olha você ainda aqui, tantos anos depois.

Meus tipos

Chega um tempo em que os amigos começam a desaparecer das nossas vistas. É como se passassem para outra dimensão, onde nossa parca visão não os consegue alcançar. Com o tempo, começam a ameaçar cair no esquecimento e se afastarem também das nossas memórias. Acontece que são pessoas tão especiais, tão únicas, que não é possível deixar que isso aconteça.

Aqui tentarei erguer um memorial a essas pessoas. Amigos queridos que já se foram, mas que é preciso que se deixe registrado o tão fantástico que foram.