Esse texto foi escrito por minha amiga Fatima Lima, para discurso proferido por ocasião da entrega do prêmio da Mostra de Saúde de Natal, em 08/12/2006
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Carmita é testemunha do quanto hesitei em aceitar a missão de estar aqui esse momento; e não foi por dificuldade de falar em público ou algo parecido; foi pelo tanto que a tarefa me pareceu dolorosa inicialmente. Pela grande responsabilidade. Pela grandeza do tema. Com certeza esse, de vários momentos em que falei para platéias muito diferentes, seja meu momento mais difícil, que mais exigiu e exigirá de mim. Em emoção e em densidade. Pois tenho que falar prá vocês sobre um amigo, um colega, um companheiro, um ser humano, um profissional que, com muitos aqui presentes, amava, admirava e respeitava. E que muito me ensinou. Um ser humano que era múltiplo e era vasto: Olinto Medeiros Rocha, médico oncologista, sanitarista, acupunturista, professor, poeta (diplomata por perfil). Um inventor e tecelão da vida.
E tenho que falar sobre ele sob o peso de sua enorme ausência. Olinto Rocha, cidadão do mundo, era um nativo da nação seridoense, berço dos Medeiros Rocha. Um dos muitos filhos de Nossa Senhora De Santana De Caicó que ganharam o mundo e com seu toque lhe mudaram um pouco a face; fizeram-no melhor e mais bonito. Precisei da ajuda de alguém da tribo prá viajar no tempo e foi com Renato Rocha, guardião da memória (e das estórias) da família Medeiros Rocha que visitei (através do telefone e internet) essa Caicó arcaica onde dr. José Medeiros, o pai, descendente de portugueses, filho de fazendeiros, constituiu o dna de tantos Medeiros Rocha médicos, dois deles sanitaristas: Paulo e Olinto Rocha. Dr. Medeiros fez medicina na Bahia (sem agá seg. Renato), formou-se em 1930 e veio trabalhar como médico do governo em Caicó com a missão de debelar uma epidemia de tifo que então estava ocorrendo entre os trabalhadores da construção do açude de Itans. Renato me escreveu: “papai era alto, bonito, elegante: muito parecido com Olinto”. Na Fazenda Penedo, a futura Dona Ignez Medeiros Rocha aguardava seu destino: o doutor que só usava ternos de linho branco gostava de conversar “com padre, juiz delegado e gente do povo”, não cobrava consulta dos pobres, socializava os custos da assistência prestada,cobrando dos fazendeiros ricos... Em dobro. Dona Inez era da família Dantas, a quem renato atribui a porção de dna responsável pela veia intelectual de Olinto Rocha. O DNA da valentia também: pois quando o marido morreu juntou os muitos filhos, o mais novo com sete meses e veio morar em natal onde garantiu que todos, além de vários netos, estudassem até o curso superior. Conheci-a. Dona Ignez era uma altiva dama do Seridó. E governava uma acolhedora casa de fazenda transposta prá cidade grande. Com aconchego e requintes. Dessas sementes e cimento nasceu e se criou Olinto Rocha.
Menino bem comportado na escola primária de dona Lourdes em Caicó, meio tímido, discreto, fazedor de versos e aquarelas quando adolescente em natal. E já se anunciava o leitor voraz, a curiosidade já de bom tamanho. Uma certa vocação prá saber de tudo um muito e fazer do que se propusesse o mais bem feito possível. O projeto Olinto Rocha estava em andamento na Avenida Deodoro, 294, passou pela faculdade de medicina da UFRN, pelo teatro, cinema, bares e boemia. Tudo o que tinha direito. Onde havia gente, vida, arte, comunicação e informação ali estava Olinto Rocha que um dia acabou nordestinamente desembarcando no rio de janeiro a fazer residência médica em oncologia. Rio de Janeiro-Natal-São Paulo- Natal foram roteiros definitivos na sua formação e neles trafegou com a determinação que foi uma de suas marcas. Nesse percurso foi diversificando sua formação profissional tendo também se especializado em saúde pública e, posteriormente, em acupuntura. Em todos seus projetos a dimensão social ocupava um lugar prioritário. O outro, o ser humano, para ele tinha existência real. Sempre lhe importava e era motivação da medicina que fazia, da saúde pública que pensava.
Como sanitarista trabalhou no nível central das secretarias do estado e do município de São Paulo. Entre outras habilidades era reconhecida sua competência na área de planejamento em saúde. E não houve regional de saúde da secretaria estadual ou distrito de saúde da municipal de São Paulo em que não tenha dado alguma contribuição. Ao ministério da saúde foi chamado muitas vezes para consultorias em diversos projetos, pois trabalhar com ele era algo que todos queriam; alguém estava sempre a lembrar seu nome porque tinha compartilhado uma experiência rica com ele ou ouvido referências. E ele atendia. Sempre com entusiasmo, seriedade e simplicidade. Não fazia diferença se era Brasília-DF ou Brasília Teimosa. Lembro de quando, morando em São Paulo, pegava diariamente um trem da CPTM para o município de franco da Rocha, a 30 km da capital onde estava trabalhando num projeto (como ele dizia) “maravilhoso” , acho que de orçamento participativo. O projeto era maravilhoso. Para ele a viagem e a estação do trem de caieira e franco da Rocha eram mais maravilhosas ainda. Olinto sempre costumava andar de transporte publico, de taxi, de carona ou a pé. Não gostou de ter carro e de dirigir. Dispensou. Assim era ele. O trabalho sempre se transformando em fonte de encantamento e prazer. Durante muito tempo trabalhando no centro de São Paulo, cidade que amava, quando podia aproveitava os intervalos para descobrir recantos da cidade que prá maioria das pessoas passavam despercebidos. Era um especializado guia da cidade como só os que a conhecem com alma de artista e amor de amante podem ser. – se ao falar, misturo trabalho, arte e lazer é porque é inevitável – ele era assim- não deixava prá viver a vida depois do trabalho – a vida era o trabalho e seu entorno; a cidade enquanto trabalhava Com qualquer tarefa que estivesse envolvido era objetivo e organizado; em reuniões de trabalho, rigoroso prá não fugir desnecessariamente da pauta (era um planejador!) Às vezes se chocando com certa vocação prá indisciplina que se percebe em muitas situações das quais qualquer um de nós aqui já participou. Mas isso não significava rigidez. Não. Olinto Rocha dominava como ninguém o exercício do equilíbrio entre os contrários. Combinava disciplina e flexibilidade com tanta doçura e sabedoria! Profissional de uma consistência teórica e experiência inequívocas sabia abrir mão de seus pressupostos e defender as idéias dos companheiros (muitas vezes inexperientes e com formação teórica ainda iniciando) . Se fosse o caso não só defendia as idéias como se esmerava em descobrir algum instrumento legal ( lei , portaria, o que fosse) que lhes desse suporte. Como bom professor, aprendia sempre e estimulava a criatividade. Não se deixava inibir, nem inibia os outros pelo pecado mortal da interdição ao ousar. Inventar era preciso. Muitos profissionais de saúde da SESAP, da SMS / NATAL tiveram oportunidade de trabalhar em projetos em que deu consultoria e são testemunhas do que estou falando.
Como vocês concorreram a um prêmio que levam o nome dele e como a mesa teve a confiança de me dar a palavra, eu vou lhes contar um segredo (e lhes digo exatamente o que ele dirá se estiver nos ouvindo: ela continua exagerada...): Olinto Rocha era um homem sábio. Só que ele era de uma sutileza e delicadeza que acabava disfarçando; não sei onde conseguia tempo prá estudar tanto, tanta coisa. Mas o quê e o quanto ele sabia!! Algumas vezes, me pedindo opinião sobre algum caso psiquiátrico (cuja psicopatologia ele já descrevia com absoluta clareza), discreta e humildemente me dizia por ex: “parece com aquele quadro que vocês. chamam TOC. Mas eu não sei. Queria que você visse”. Eu via. Era TOC... E ele não estava querendo ser psiquiatra embora fosse um psicoterapeuta nato, intuitivo (seus pacientes da clinica de acupuntura que o digam ). Não. Ele simplesmente sabia. E para conviver com ele a gente precisava ter a humildade de reconhecer-lhe a grandeza sem temer-lhe a sombra, porque, generoso e justo, ele reconhecia as qualidades e saberes de cada um; às vezes, acho até que garimpava muito para encontrá-los. O outro, os outros, sempre tinham suas qualidades, seus saberes, suas razões. Olinto Rocha foi professor da UFRN e como tal um dos fundadores do Núcleo de Estudos Em Saúde Coletiva – NESC e professor da segunda turma do curso de especialização em Saúde Pública promovido por esse mesmo NESC em convenio com a USP. Por esta via além das consultorias e assessorias que com freqüência era convidado a dar na SESAP e SMS foi um importante partícipe do processo de construção do SUS no estado e, em diversos momentos, no município de natal. A saúde publica do Rio Grande do Norte lhe deve muito.
Essa trajetória que transformei em algumas linhas numa tela de computador e foram anos de vida intensamente vivida, as pessoas que tiveram a sorte de sentar na mesma mesa, freqüentar a mesma sala, conviver com ele, ser seu amigo ou amigo ou eventual companheiro de trabalho, essas pessoas se encantaram e tiveram muito o que aprender com a as muitas qualidades desse sagitariano, seridoense, cosmopolita, o melhor ombro amigo com que alguém poderia contar. Ninguém cuidava melhor dos amigos. Em nossa tribo de sanitaristas e psiquiatras O.R. Foi sempre “o médico”. Não conheci em nossa geração um compadre que levasse tão a sério o papel de compadre. . Um padrinho tão padrinho. Um tio mais tio. Um irmão mais cioso da irmandade. Um amigo mais leal. Não tenho procuração para falar pela família Medeiros Rocha nem é esse o fórum nem o caso, mas sei do lugar especial que ocupava na família, do amoroso e incondicional apoio que dividia para todos. Esse O.R. que, sabiamente administrava a convivência dos contrários, que seg. Renato Rocha com “incrível desenvoltura entrava e saía da peixada da comadre ou do America futebol clube”, dos corredores de Brasília ou de Caicó, que curtia música clássica e se divertia com a brega, conhecia escritores e poetas famosos e os outsiders, ousava escapar à unanimidade fácil não se acomodando na cama/calma fácil dos preconceitos. Um tecelão da liberdade. Um artista. Que sabia reconhecer os iguais. E tratar com delicadeza a vida, a natureza, as pessoas.
Compreendê-las.
Acolhimento, elegância, delicadeza e conciliação são palavras emblemáticas do vocabulário olintorochiano. Em agosto deste ano Olinto Rocha fez pela última vez a viagem que mais gostava de fazer: Natal - São Paulo – Natal.
Por tudo isso que consegui dizer, pelo que não consegui é que termino parodiando Gabriel Garcia Marquez quando em 1950 referiu-se à concessão do prêmio Nobel ao escritor americano William Faulkner: o batismo com o nome de Olinto Rocha do prêmio da primeira mostra de saúde Natal é uma escolha que acaba por enaltecer mais quem homenageia do que o homenageado. À Secretaria Municipal De Saúde e ao prefeito da cidade do natal, o mérito pela lucidez da escolha.
Meus parabéns a (o) vencedor( a ) pelo privilégio
sábado, setembro 29, 2007
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