sábado, setembro 29, 2007

Olinto Rocha - de um poeta que sabia e fez a hora - teceu e aconteceu

Esse texto foi escrito por minha amiga Fatima Lima, para discurso proferido por ocasião da entrega do prêmio da Mostra de Saúde de Natal, em 08/12/2006


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Carmita é testemunha do quanto hesitei em aceitar a missão de estar aqui esse momento; e não foi por dificuldade de falar em público ou algo parecido; foi pelo tanto que a tarefa me pareceu dolorosa inicialmente. Pela grande responsabilidade. Pela grandeza do tema. Com certeza esse, de vários momentos em que falei para platéias muito diferentes, seja meu momento mais difícil, que mais exigiu e exigirá de mim. Em emoção e em densidade. Pois tenho que falar prá vocês sobre um amigo, um colega, um companheiro, um ser humano, um profissional que, com muitos aqui presentes, amava, admirava e respeitava. E que muito me ensinou. Um ser humano que era múltiplo e era vasto: Olinto Medeiros Rocha, médico oncologista, sanitarista, acupunturista, professor, poeta (diplomata por perfil). Um inventor e tecelão da vida.

E tenho que falar sobre ele sob o peso de sua enorme ausência. Olinto Rocha, cidadão do mundo, era um nativo da nação seridoense, berço dos Medeiros Rocha. Um dos muitos filhos de Nossa Senhora De Santana De Caicó que ganharam o mundo e com seu toque lhe mudaram um pouco a face; fizeram-no melhor e mais bonito. Precisei da ajuda de alguém da tribo prá viajar no tempo e foi com Renato Rocha, guardião da memória (e das estórias) da família Medeiros Rocha que visitei (através do telefone e internet) essa Caicó arcaica onde dr. José Medeiros, o pai, descendente de portugueses, filho de fazendeiros, constituiu o dna de tantos Medeiros Rocha médicos, dois deles sanitaristas: Paulo e Olinto Rocha. Dr. Medeiros fez medicina na Bahia (sem agá seg. Renato), formou-se em 1930 e veio trabalhar como médico do governo em Caicó com a missão de debelar uma epidemia de tifo que então estava ocorrendo entre os trabalhadores da construção do açude de Itans. Renato me escreveu: “papai era alto, bonito, elegante: muito parecido com Olinto”. Na Fazenda Penedo, a futura Dona Ignez Medeiros Rocha aguardava seu destino: o doutor que só usava ternos de linho branco gostava de conversar “com padre, juiz delegado e gente do povo”, não cobrava consulta dos pobres, socializava os custos da assistência prestada,cobrando dos fazendeiros ricos... Em dobro. Dona Inez era da família Dantas, a quem renato atribui a porção de dna responsável pela veia intelectual de Olinto Rocha. O DNA da valentia também: pois quando o marido morreu juntou os muitos filhos, o mais novo com sete meses e veio morar em natal onde garantiu que todos, além de vários netos, estudassem até o curso superior. Conheci-a. Dona Ignez era uma altiva dama do Seridó. E governava uma acolhedora casa de fazenda transposta prá cidade grande. Com aconchego e requintes. Dessas sementes e cimento nasceu e se criou Olinto Rocha.

Menino bem comportado na escola primária de dona Lourdes em Caicó, meio tímido, discreto, fazedor de versos e aquarelas quando adolescente em natal. E já se anunciava o leitor voraz, a curiosidade já de bom tamanho. Uma certa vocação prá saber de tudo um muito e fazer do que se propusesse o mais bem feito possível. O projeto Olinto Rocha estava em andamento na Avenida Deodoro, 294, passou pela faculdade de medicina da UFRN, pelo teatro, cinema, bares e boemia. Tudo o que tinha direito. Onde havia gente, vida, arte, comunicação e informação ali estava Olinto Rocha que um dia acabou nordestinamente desembarcando no rio de janeiro a fazer residência médica em oncologia. Rio de Janeiro-Natal-São Paulo- Natal foram roteiros definitivos na sua formação e neles trafegou com a determinação que foi uma de suas marcas. Nesse percurso foi diversificando sua formação profissional tendo também se especializado em saúde pública e, posteriormente, em acupuntura. Em todos seus projetos a dimensão social ocupava um lugar prioritário. O outro, o ser humano, para ele tinha existência real. Sempre lhe importava e era motivação da medicina que fazia, da saúde pública que pensava.

Como sanitarista trabalhou no nível central das secretarias do estado e do município de São Paulo. Entre outras habilidades era reconhecida sua competência na área de planejamento em saúde. E não houve regional de saúde da secretaria estadual ou distrito de saúde da municipal de São Paulo em que não tenha dado alguma contribuição. Ao ministério da saúde foi chamado muitas vezes para consultorias em diversos projetos, pois trabalhar com ele era algo que todos queriam; alguém estava sempre a lembrar seu nome porque tinha compartilhado uma experiência rica com ele ou ouvido referências. E ele atendia. Sempre com entusiasmo, seriedade e simplicidade. Não fazia diferença se era Brasília-DF ou Brasília Teimosa. Lembro de quando, morando em São Paulo, pegava diariamente um trem da CPTM para o município de franco da Rocha, a 30 km da capital onde estava trabalhando num projeto (como ele dizia) “maravilhoso” , acho que de orçamento participativo. O projeto era maravilhoso. Para ele a viagem e a estação do trem de caieira e franco da Rocha eram mais maravilhosas ainda. Olinto sempre costumava andar de transporte publico, de taxi, de carona ou a pé. Não gostou de ter carro e de dirigir. Dispensou. Assim era ele. O trabalho sempre se transformando em fonte de encantamento e prazer. Durante muito tempo trabalhando no centro de São Paulo, cidade que amava, quando podia aproveitava os intervalos para descobrir recantos da cidade que prá maioria das pessoas passavam despercebidos. Era um especializado guia da cidade como só os que a conhecem com alma de artista e amor de amante podem ser. – se ao falar, misturo trabalho, arte e lazer é porque é inevitável – ele era assim- não deixava prá viver a vida depois do trabalho – a vida era o trabalho e seu entorno; a cidade enquanto trabalhava Com qualquer tarefa que estivesse envolvido era objetivo e organizado; em reuniões de trabalho, rigoroso prá não fugir desnecessariamente da pauta (era um planejador!) Às vezes se chocando com certa vocação prá indisciplina que se percebe em muitas situações das quais qualquer um de nós aqui já participou. Mas isso não significava rigidez. Não. Olinto Rocha dominava como ninguém o exercício do equilíbrio entre os contrários. Combinava disciplina e flexibilidade com tanta doçura e sabedoria! Profissional de uma consistência teórica e experiência inequívocas sabia abrir mão de seus pressupostos e defender as idéias dos companheiros (muitas vezes inexperientes e com formação teórica ainda iniciando) . Se fosse o caso não só defendia as idéias como se esmerava em descobrir algum instrumento legal ( lei , portaria, o que fosse) que lhes desse suporte. Como bom professor, aprendia sempre e estimulava a criatividade. Não se deixava inibir, nem inibia os outros pelo pecado mortal da interdição ao ousar. Inventar era preciso. Muitos profissionais de saúde da SESAP, da SMS / NATAL tiveram oportunidade de trabalhar em projetos em que deu consultoria e são testemunhas do que estou falando.

Como vocês concorreram a um prêmio que levam o nome dele e como a mesa teve a confiança de me dar a palavra, eu vou lhes contar um segredo (e lhes digo exatamente o que ele dirá se estiver nos ouvindo: ela continua exagerada...): Olinto Rocha era um homem sábio. Só que ele era de uma sutileza e delicadeza que acabava disfarçando; não sei onde conseguia tempo prá estudar tanto, tanta coisa. Mas o quê e o quanto ele sabia!! Algumas vezes, me pedindo opinião sobre algum caso psiquiátrico (cuja psicopatologia ele já descrevia com absoluta clareza), discreta e humildemente me dizia por ex: “parece com aquele quadro que vocês. chamam TOC. Mas eu não sei. Queria que você visse”. Eu via. Era TOC... E ele não estava querendo ser psiquiatra embora fosse um psicoterapeuta nato, intuitivo (seus pacientes da clinica de acupuntura que o digam ). Não. Ele simplesmente sabia. E para conviver com ele a gente precisava ter a humildade de reconhecer-lhe a grandeza sem temer-lhe a sombra, porque, generoso e justo, ele reconhecia as qualidades e saberes de cada um; às vezes, acho até que garimpava muito para encontrá-los. O outro, os outros, sempre tinham suas qualidades, seus saberes, suas razões. Olinto Rocha foi professor da UFRN e como tal um dos fundadores do Núcleo de Estudos Em Saúde Coletiva – NESC e professor da segunda turma do curso de especialização em Saúde Pública promovido por esse mesmo NESC em convenio com a USP. Por esta via além das consultorias e assessorias que com freqüência era convidado a dar na SESAP e SMS foi um importante partícipe do processo de construção do SUS no estado e, em diversos momentos, no município de natal. A saúde publica do Rio Grande do Norte lhe deve muito.

Essa trajetória que transformei em algumas linhas numa tela de computador e foram anos de vida intensamente vivida, as pessoas que tiveram a sorte de sentar na mesma mesa, freqüentar a mesma sala, conviver com ele, ser seu amigo ou amigo ou eventual companheiro de trabalho, essas pessoas se encantaram e tiveram muito o que aprender com a as muitas qualidades desse sagitariano, seridoense, cosmopolita, o melhor ombro amigo com que alguém poderia contar. Ninguém cuidava melhor dos amigos. Em nossa tribo de sanitaristas e psiquiatras O.R. Foi sempre “o médico”. Não conheci em nossa geração um compadre que levasse tão a sério o papel de compadre. . Um padrinho tão padrinho. Um tio mais tio. Um irmão mais cioso da irmandade. Um amigo mais leal. Não tenho procuração para falar pela família Medeiros Rocha nem é esse o fórum nem o caso, mas sei do lugar especial que ocupava na família, do amoroso e incondicional apoio que dividia para todos. Esse O.R. que, sabiamente administrava a convivência dos contrários, que seg. Renato Rocha com “incrível desenvoltura entrava e saía da peixada da comadre ou do America futebol clube”, dos corredores de Brasília ou de Caicó, que curtia música clássica e se divertia com a brega, conhecia escritores e poetas famosos e os outsiders, ousava escapar à unanimidade fácil não se acomodando na cama/calma fácil dos preconceitos. Um tecelão da liberdade. Um artista. Que sabia reconhecer os iguais. E tratar com delicadeza a vida, a natureza, as pessoas.
Compreendê-las.

Acolhimento, elegância, delicadeza e conciliação são palavras emblemáticas do vocabulário olintorochiano. Em agosto deste ano Olinto Rocha fez pela última vez a viagem que mais gostava de fazer: Natal - São Paulo – Natal.

Por tudo isso que consegui dizer, pelo que não consegui é que termino parodiando Gabriel Garcia Marquez quando em 1950 referiu-se à concessão do prêmio Nobel ao escritor americano William Faulkner: o batismo com o nome de Olinto Rocha do prêmio da primeira mostra de saúde Natal é uma escolha que acaba por enaltecer mais quem homenageia do que o homenageado. À Secretaria Municipal De Saúde e ao prefeito da cidade do natal, o mérito pela lucidez da escolha.

Meus parabéns a (o) vencedor( a ) pelo privilégio

domingo, abril 01, 2007

Japi

José Alves Pinheiro. Começou como Zé Alves, mas assinando JAPI, assim ficou. Me ocorre que se ainda estivesse conosco, esse seria certamente seu "username" em um endereço de email: japi arroba qualquer coisa ponto com ponto br.

Perder esse cara foi, seguramente, o mais doloroso golpe que sofri. Havia entre nós um elo, um vínculo, que nos fazia irmãos, parceiros, cúmplices de coisas que iam de posições políticas às futilidades cotidianas. Coisa, aliás, que adorávamos conversar. Lembro-me que no dia que soube do terrível diagnóstico que tinha, entrei no consultório de Hebe e xinguei Deus até não poder mais.

Não tive coragem de ir vê-lo, queria ficar com a imagem da última vez que nos vimos. Estou na Cinelandia, ouço chamarem meu nome. De repente vejo aquele cara altão, de camisa vermelha, rindo. Era ele. Estava indo pra Ribeirão Preto terminar sua tese de doutorado. Entramos em um café por ali mesmo e colocamos o papo em dia. Rimos muito e, pela última vez, eu o vi naquele seu gesto característico de, quando rir, jogar a cabeça pra traz e passar a mão nos cabelos.

Entrou na Faculdade de Medicina naquela maravilhosa turma dos "excedentes" de 68. Tinha o jeitão do seridoense típico: branco, alto, hirsuto (ele iriam morrer de rir vendo essa palavra aqui), fala mansa e uma maneira de lidar com as pessoas, que as cativava imediatamente. A minha mãe, por exemplo, era absolutamente apaixonada por ele. Amigo, era daqueles de estar com voce em qualquer momento, mas, ao mesmo tempo, tinha a franqueza dos ingênuos, dizendo o que pensava e, muitas vezes, se ferrando com as pessoas que preferiam os hipócritas.

Fizemos Residência no Rio, ele no Servidores e eu na Psiquiatria, mas nos encontrávamos quando podíamos. Algumas vezes estive no Polybio, edifício da Barata Ribeiro onde morava com Ribamar e... quem era mesmo? Almir?

Uma vez fomos passar o fim de semana em Sampa, onde conheci um amigo seu de Alagoas. Esse foi mesmo um fim de semana de grandes farras. Esse amigo nos levou a uns lugares muito loucos e só me lembro que tomamos o ônibus de volta completamente bêbados de vinho. E olha que ele nem era muito de beber!

Depois ele foi fazer o mestrado em São Paulo, onde encontrou Dete, essa mulher maravilhosa que o acompanhou até o fim. Um final de semana fomos - Paulo e eu - ficar com eles e fomos acampar com Hebe e Mucio. Viajamos no fusca verde de Mucio, com Thaisa pequenininha e um horror de tralha de acampamento. Tenho certeza que ai foi gerada Cecilia. Um lugar lindo, amigos incríveis, ótimo momento pra gerar uma menina tão linda como minha querida Ciça.

Ainda estudantes, cursando a matéria (ainda não era "disciplina)Psiquiatria, atendemos um paciente que, completamente entorpecido de neurolépticos, só tinha ânimo prá repetir: "ah, galego, tá chovendo no sertão...". Essa passou a ser sua frase preferida e tanto repetiu que passamos a chama-lo "galego". Hebinha ainda se refere a ele, até hoje, assim: o galeguinho.

Ah, Galego, que saudade.

sexta-feira, março 30, 2007

Carlinhos Gonçalves

"Quais os 10 melhores filmes deste ano?" Essa era a pergunta que ele sempre nos fazia. E antes que respondêssemos ele já começava a enumerar os que ele tinha elegido. Sabia tudo sobre cinema, lia tudo sobre filmes, via tudo que passava, às vezes assistindo uma sessão depois da outra.

Morava em São Paulo. O conheci morando, com meu irmão, em um minúsculo apartamento cujas janelas abriam direto para o "Minhocão" da Amaral Gurgel. Nesse apartamento - uma saleta, um quarto e uma cozinha - vivam meu irmão, ele e uma menina chamada Lucia, que depois da anistia passou a se chamar Lívia, mas essa já é outra história.

Carlinhos era a agitação em pessoa. Quando conversava, falava por todos os poros. Ria, gesticulava, se levantava, andava pela sala imitando gestos. Era todo movimento. Às vezes ia passar um final de semana conosco no Rio e ai se agitava mais ainda, porque a-do-ra-va o Rio, o sol, a praia, o povo tão alegre. Amava conversar com Paulo e achava o máximo lerem o "Cahiers du Cinema", que Paulo comprava regularmente, numa época em que também se dedicou a saber sobre cinema.

Generoso, sabia ouvir nossas angústias de nordestino vivendo em uma cidade grande, com saudade da carne de sol e do feijão verde. Ouvia e nos consolava contando do seu sofrimento também, alguns anos antes, quando chegou em São Paulo, fugindo do preconceito e da marginalização homófoba de nossa cidade natal.

Muito vivo na minha memória o dia em que assistimos, em Natal, o show de Caetano Veloso. Era em um estádio ao ar livre, todos nós de pé no meio do gramado, ouvindo Caetano cantar "Velho Chico", ele quase em lágrimas, enternecido com a beleza da música.

Da última vez em que o vi ele estava sentado no sofá da sala da minha casa. Me contava do terrível diagnóstico que tinha recebido recentemente, numa época em que isso era um atestado de morte iminente. Com toda a sua agitação e força me disse: "eu vou vencer essa, pode esperar".

Venceu mesmo, Carlinhos, olha você ainda aqui, tantos anos depois.

Meus tipos

Chega um tempo em que os amigos começam a desaparecer das nossas vistas. É como se passassem para outra dimensão, onde nossa parca visão não os consegue alcançar. Com o tempo, começam a ameaçar cair no esquecimento e se afastarem também das nossas memórias. Acontece que são pessoas tão especiais, tão únicas, que não é possível deixar que isso aconteça.

Aqui tentarei erguer um memorial a essas pessoas. Amigos queridos que já se foram, mas que é preciso que se deixe registrado o tão fantástico que foram.