domingo, abril 01, 2007

Japi

José Alves Pinheiro. Começou como Zé Alves, mas assinando JAPI, assim ficou. Me ocorre que se ainda estivesse conosco, esse seria certamente seu "username" em um endereço de email: japi arroba qualquer coisa ponto com ponto br.

Perder esse cara foi, seguramente, o mais doloroso golpe que sofri. Havia entre nós um elo, um vínculo, que nos fazia irmãos, parceiros, cúmplices de coisas que iam de posições políticas às futilidades cotidianas. Coisa, aliás, que adorávamos conversar. Lembro-me que no dia que soube do terrível diagnóstico que tinha, entrei no consultório de Hebe e xinguei Deus até não poder mais.

Não tive coragem de ir vê-lo, queria ficar com a imagem da última vez que nos vimos. Estou na Cinelandia, ouço chamarem meu nome. De repente vejo aquele cara altão, de camisa vermelha, rindo. Era ele. Estava indo pra Ribeirão Preto terminar sua tese de doutorado. Entramos em um café por ali mesmo e colocamos o papo em dia. Rimos muito e, pela última vez, eu o vi naquele seu gesto característico de, quando rir, jogar a cabeça pra traz e passar a mão nos cabelos.

Entrou na Faculdade de Medicina naquela maravilhosa turma dos "excedentes" de 68. Tinha o jeitão do seridoense típico: branco, alto, hirsuto (ele iriam morrer de rir vendo essa palavra aqui), fala mansa e uma maneira de lidar com as pessoas, que as cativava imediatamente. A minha mãe, por exemplo, era absolutamente apaixonada por ele. Amigo, era daqueles de estar com voce em qualquer momento, mas, ao mesmo tempo, tinha a franqueza dos ingênuos, dizendo o que pensava e, muitas vezes, se ferrando com as pessoas que preferiam os hipócritas.

Fizemos Residência no Rio, ele no Servidores e eu na Psiquiatria, mas nos encontrávamos quando podíamos. Algumas vezes estive no Polybio, edifício da Barata Ribeiro onde morava com Ribamar e... quem era mesmo? Almir?

Uma vez fomos passar o fim de semana em Sampa, onde conheci um amigo seu de Alagoas. Esse foi mesmo um fim de semana de grandes farras. Esse amigo nos levou a uns lugares muito loucos e só me lembro que tomamos o ônibus de volta completamente bêbados de vinho. E olha que ele nem era muito de beber!

Depois ele foi fazer o mestrado em São Paulo, onde encontrou Dete, essa mulher maravilhosa que o acompanhou até o fim. Um final de semana fomos - Paulo e eu - ficar com eles e fomos acampar com Hebe e Mucio. Viajamos no fusca verde de Mucio, com Thaisa pequenininha e um horror de tralha de acampamento. Tenho certeza que ai foi gerada Cecilia. Um lugar lindo, amigos incríveis, ótimo momento pra gerar uma menina tão linda como minha querida Ciça.

Ainda estudantes, cursando a matéria (ainda não era "disciplina)Psiquiatria, atendemos um paciente que, completamente entorpecido de neurolépticos, só tinha ânimo prá repetir: "ah, galego, tá chovendo no sertão...". Essa passou a ser sua frase preferida e tanto repetiu que passamos a chama-lo "galego". Hebinha ainda se refere a ele, até hoje, assim: o galeguinho.

Ah, Galego, que saudade.

Um comentário:

Fatima Lima disse...

VERINHA: só hoje entrei no seu blogue; talvez sabendo que ia chorar como tou fazendo agora. Saudades do Glaego. E chorei até com meu texto sobre Olinto. Somos umas privilegiadas de termos convivido com tantos extra terrestres maravilhoso. Bjão e parabéns. Fá